As primeiras palavras. O primeiro encontro.
Palavras que não acho deixam-me aflito.
Ela sorri. Ela é bonita!
A noite chega-nos a sós para meu espanto.
Nas palmeiras o vento refrata como um grito.
Ela me envolve suave como um manto.
Brilham as luzes seus olhos coloridos.
Surpreende-me sua boca e me encanto.
Como não amar o sorriso doce, seu gesto querido?
Palavras como um rio fluem para as águas do seu remanso.
É certo, queria seu abraço e seu beijo.
Palavras inexatas alegram meu ouvido.
Quanto queria tê-la meu coração aflito!
A hora implacável proclama meu pranto.
E aquele sorriso que ainda vejo
Foram mais palavras que tenha entendido.
A noite em todos chega como um canto.
A mim como uma pena: deserto e consumido.
Onde estará a dona do meu desejo?
Desenho seu rosto nas nuvens sob o céu infinito.
Meu abraço solitário bem a quis.
Meus olhos beijado seus olhos vivos.
Como ter seu calor benfazejo?
Meu coração em seu peito o abrigo?
A lua redonda e baixa emoldura minha janela.
A noite meu anseio dolorido.
Porque esta noite eu bem a quis como aquela.
Minha alma insone reclama meu olhar perdido.
Sua imagem vem com a aurora e o luar.
Eu rindo de mim mesmo sem acalanto.
A poesia transcende tempo e espaço, matéria e espírito,
Mas eu sei que vou te amar.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Temudjin
No mar de capim da esquecida Mongólia surge a lenda:
Abandonados pela tribo uma mãe como loba e filhotes.
Quem teria sobrevivido às tirânicas intempéries?
E por anos a fio,
Após cavalgar por geladas planícies,
Uniram os lobos azuis
A cólera do Pai Céu e Mãe Terra
Pelas tribos dispersas
E calaram os tártaros.
Foram felizes como crianças brincando,
O arco e o potro eram suas mãos e alma.
Ungidos pelo calor e o frio,
Implacáveis como o fogo.
Impetuosos como avalanche,
Velozes como o silvo de suas setas.
Dispararam arcos mortíferos,
Suplantaram montanhas e desertos.
Eí-los agora sobre vastidões intocadas
Dos seculares senhores de sua cizânia.
Uma a uma caíram suas cidades
Que as muralhas de Yensing*
Choraram de fome.
Tomaram mulheres
E espalharam sementes pela terra.
Pilharam o ouro e a seda.
Fizeram o diabo erguer o fumo
Sobre os horizontes.
Subjugaram as dinastias Jin e Song,
E nada sobraria se a humilhação não saciasse
Seus corações sedentos de sangue.
Esgotaram todas as direções
E cruzaram a neve.
Dobraram o Dnieper e assenhoram-se da Rússia.
Bateram os Bálcãs e cansaram-se de conquistas.
Por fim, estacaram o medo
Retirando as patas dos potros
Das portas do ocidente.
E nada ditaram ao escriba
Porque não havia escriba pra seus ditados.
Como que só o vento
Fosse-lhes o arauto aos nossos dias.
*Pequim
Abandonados pela tribo uma mãe como loba e filhotes.
Quem teria sobrevivido às tirânicas intempéries?
E por anos a fio,
Após cavalgar por geladas planícies,
Uniram os lobos azuis
A cólera do Pai Céu e Mãe Terra
Pelas tribos dispersas
E calaram os tártaros.
Foram felizes como crianças brincando,
O arco e o potro eram suas mãos e alma.
Ungidos pelo calor e o frio,
Implacáveis como o fogo.
Impetuosos como avalanche,
Velozes como o silvo de suas setas.
Dispararam arcos mortíferos,
Suplantaram montanhas e desertos.
Eí-los agora sobre vastidões intocadas
Dos seculares senhores de sua cizânia.
Uma a uma caíram suas cidades
Que as muralhas de Yensing*
Choraram de fome.
Tomaram mulheres
E espalharam sementes pela terra.
Pilharam o ouro e a seda.
Fizeram o diabo erguer o fumo
Sobre os horizontes.
Subjugaram as dinastias Jin e Song,
E nada sobraria se a humilhação não saciasse
Seus corações sedentos de sangue.
Esgotaram todas as direções
E cruzaram a neve.
Dobraram o Dnieper e assenhoram-se da Rússia.
Bateram os Bálcãs e cansaram-se de conquistas.
Por fim, estacaram o medo
Retirando as patas dos potros
Das portas do ocidente.
E nada ditaram ao escriba
Porque não havia escriba pra seus ditados.
Como que só o vento
Fosse-lhes o arauto aos nossos dias.
*Pequim
sábado, 12 de dezembro de 2009
Jericocoara
O sol diz adeus ao dia,
Últimos dourados espelham o mar.
Cabelo solto ao vento assobia,
Seio exposto bocas a beijar.
A lua gira no céu a cabeça turva.
A luz agoniza e delineia.
Das alvas dunas e sereia,
Ainda revela o macio das curvas.
Vastidão de areias e mar,
Lua cheia agora sozinhos.
A brisa e o farol são vizinhos,
Lampeja, já toca o mar.
Passeiam por sobre o mar,
O vento terral e a lua.
Refresca e brilha no olhar
Da sereia a silhueta nua.
Abraçam carícias e o vento frio.
Pelo corpo as mãos e o carinho.
Sinto da tez e o arrepio,
Teu cheiro úmido do ar marinho.
Pássaro beija rosa orvalhada.
Perfumes, pétalas, ato de amar.
Suavizam o silêncio as ondas do mar,
O êxtase à flor eletrizada.
Cintilam as estrelas a voz geme,
Jogam as coxas à noite enluarada.
Teu corpo toda a terra treme
Em doce nudez iluminada.
Pairam sobre a terra a noite e a fera.
Arde teu ventre queima a areia,
Chama ardente e ao fogo ateia
O calor de um só corpo na esfera.
Fere sutil a noite e o clima,
Enquanto o abraço apertado
À cintura e o seio beijado,
Rara nave voa lá em cima.
A paz repousa sob o céu,
O amor e os dois vão à vila.
Caminham em noite tranquila
Ao luar as estrelas ao véu.
Seduzem e encantam o lugar
A atmosfera de magia.
Na orla a alegria,
O morno banho de mar.
Teu amor e na água espelhada,
Do brilho que se vê agora,
Da lua por esta pedra furada
À espera estes versos e a hora.
Só o riso, a música do mar
Com os dois seguem a trilha,
A lua branca que brilha
E noturno meteoro a vagar.
A vida calma o mundo é distante.
Paisagens a perder de vista,
Em torno é livre o horizonte,
A mente viaja ao coração conquista.
Brasileiros, muitas pessoas,
Gente do mundo inteiro,
Vêm de janeiro a janeiro,
Ver o mistério, dunas, lagoas.
A virgem natureza
De mutáveis areias.
Dunas em lagoas permeia
Em sítio de rara beleza!
A América guina a oeste e esquiva
Para o sol belo se pôr aqui,
Em quadro que à memória viva
Na breve palavra sintetiza Jeri.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Cidade pequena
Grande sol do Equador
Percorres os confins da Via Láctea,
Ainda assim não iluminas
De razão esta cidade.
Mal crescida, a paz já nos devora.
Monstro nos labirintos, desalento.
Revelas da aflição a face horrenda,
No pervertido triste olhar de tuas meninas,
Vendendo corpo débil agora aos bandos,
Ainda sem seios nas esquinas.
Enquanto ao lado desfila o desprezo
Da riqueza ilícita de cofre público,
Das fortunas do contrabando.
Chora pelas bordas, na praia,
O descaso a teus filhos
Por malditos de índole e de laia.
Chora tua vergonha e dor,
Por água suja que sempre aflora,
Como sangue infecto
Vertido de tuas veias.
Que falsos ilustres
Corações insinceros
Tramam em tuas teias!
Quem à opinião insulta e mascara
E desfigura tua geografia?
Quem tuas cartas avilta
E de tua terra se apropria?
Quem aliena tuas almas,
Monumenta o palácio
Pelo fausto disfarce dos lustres?
Quem te impõe iméritos espaços
Sem democracia?
Que política do passado e de agora
Vendeu pedaços de tua alma?
Que te fizeram dos rios, dos mangues,
Da vida, da paz, das praças,
Cidade pequena de ladrões?
Que verde te suprimiram de eterno!
Que bela máscara às pressas,
Esconde na orla
Teu sofrimento interno!
Percorres os confins da Via Láctea,
Ainda assim não iluminas
De razão esta cidade.
Mal crescida, a paz já nos devora.
Monstro nos labirintos, desalento.
Revelas da aflição a face horrenda,
No pervertido triste olhar de tuas meninas,
Vendendo corpo débil agora aos bandos,
Ainda sem seios nas esquinas.
Enquanto ao lado desfila o desprezo
Da riqueza ilícita de cofre público,
Das fortunas do contrabando.
Chora pelas bordas, na praia,
O descaso a teus filhos
Por malditos de índole e de laia.
Chora tua vergonha e dor,
Por água suja que sempre aflora,
Como sangue infecto
Vertido de tuas veias.
Que falsos ilustres
Corações insinceros
Tramam em tuas teias!
Quem à opinião insulta e mascara
E desfigura tua geografia?
Quem tuas cartas avilta
E de tua terra se apropria?
Quem aliena tuas almas,
Monumenta o palácio
Pelo fausto disfarce dos lustres?
Quem te impõe iméritos espaços
Sem democracia?
Que política do passado e de agora
Vendeu pedaços de tua alma?
Que te fizeram dos rios, dos mangues,
Da vida, da paz, das praças,
Cidade pequena de ladrões?
Que verde te suprimiram de eterno!
Que bela máscara às pressas,
Esconde na orla
Teu sofrimento interno!
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Jangada
Nave primitiva, não imagina
Quem na água a vê, o árduo afã
De homens que sabem vã
Pode ser da viagem a rotina.
Que na orla cedo inicia
Quando quebra no barco a vaga,
Fá-lo subir e ligeiro esmaga
A mesma água que singra e acaricia.
Suspense é o momento que assiste,
Que faz fluir o sangue
Como mar no mangue,
Quando da força a maré insiste.
Mas ganha o mar a vela,
Sujeita às forças que lhe espreitam.
O sol e a lida por vir esperam,
Urge-lhe a vida e não protela.
Só ao longe, muito longe some,
Aos olhos só cansam e não vêem,
Após a fadiga do percurso terem,
Fixa-lhe o lugar a fateixa é o nome.
A praça da faina tem sua vida.
O sono úmido no convés se reveza
Pela cavala que ao sorriso embeleza,
Após luta, já sangra combalida.
Ao peixe no convés molhado,
Que fisgado é alimento e dinheiro,
Após abrasar dia inteiro,
O que foi chão também é telhado.
Neste chão que a vaga lava,
Onde a paz cozinha a comida,
Testemunha garra desmedida,
Que só se revela ao céu e à água.
Mas se lhe acirra a vaga o temporal,
Onde quer que a vista aponte,
As vagas roubam o horizonte
E tão forte se mostra esta nau!
Suspense é o momento que assiste,
Que faz fluir o sangue,
Que faz com que o mar se zangue,
Quando da força a tormenta investe.
Impiedosa o costado lhe espanca.
Rasga-lhe já remendada vela,
Brutal lhe parte a retranca,
Um faz falta, mas não singra sem ela.
Meninos ainda se fizeram ao mar,
Homens rijos, de vida simples,
Em farrapos sem que se queixem,
Curtidos ao sol, ao perigo do alto mar.
No mar que absorve uma vida,
Segue a incerteza a nave pluma,
Vela curva ao vento a valuma
No deserto de água a vida.
Quem na água a vê, o árduo afã
De homens que sabem vã
Pode ser da viagem a rotina.
Que na orla cedo inicia
Quando quebra no barco a vaga,
Fá-lo subir e ligeiro esmaga
A mesma água que singra e acaricia.
Suspense é o momento que assiste,
Que faz fluir o sangue
Como mar no mangue,
Quando da força a maré insiste.
Mas ganha o mar a vela,
Sujeita às forças que lhe espreitam.
O sol e a lida por vir esperam,
Urge-lhe a vida e não protela.
Só ao longe, muito longe some,
Aos olhos só cansam e não vêem,
Após a fadiga do percurso terem,
Fixa-lhe o lugar a fateixa é o nome.
A praça da faina tem sua vida.
O sono úmido no convés se reveza
Pela cavala que ao sorriso embeleza,
Após luta, já sangra combalida.
Ao peixe no convés molhado,
Que fisgado é alimento e dinheiro,
Após abrasar dia inteiro,
O que foi chão também é telhado.
Neste chão que a vaga lava,
Onde a paz cozinha a comida,
Testemunha garra desmedida,
Que só se revela ao céu e à água.
Mas se lhe acirra a vaga o temporal,
Onde quer que a vista aponte,
As vagas roubam o horizonte
E tão forte se mostra esta nau!
Suspense é o momento que assiste,
Que faz fluir o sangue,
Que faz com que o mar se zangue,
Quando da força a tormenta investe.
Impiedosa o costado lhe espanca.
Rasga-lhe já remendada vela,
Brutal lhe parte a retranca,
Um faz falta, mas não singra sem ela.
Meninos ainda se fizeram ao mar,
Homens rijos, de vida simples,
Em farrapos sem que se queixem,
Curtidos ao sol, ao perigo do alto mar.
No mar que absorve uma vida,
Segue a incerteza a nave pluma,
Vela curva ao vento a valuma
No deserto de água a vida.
A necessária alegria
Quem, por seu motivo,
Ao coração da alegria o fluxo,
Análogo ao vinho se lhe retira o mosto,
Sentirá breve em seus dias,
A vida lhe diminuir aos poucos.
E mais à pele o sentimento,
Verá se esvair de todo.
Intrigado,
Só agora pude entender,
Como e porque
Morre-se de desgosto.
Sem vontade, sem sonho,
Sem prazer, sem o gosto.
Assim um rio secando
Flui menos a beleza e a força.
O rio é como nós somos:
A água abandona o rio,
Deixa lágrimas no barranco.
A alma abandona o homem,
Como a água a vida
Se nos vai de pronto.
Ao coração da alegria o fluxo,
Análogo ao vinho se lhe retira o mosto,
Sentirá breve em seus dias,
A vida lhe diminuir aos poucos.
E mais à pele o sentimento,
Verá se esvair de todo.
Intrigado,
Só agora pude entender,
Como e porque
Morre-se de desgosto.
Sem vontade, sem sonho,
Sem prazer, sem o gosto.
Assim um rio secando
Flui menos a beleza e a força.
O rio é como nós somos:
A água abandona o rio,
Deixa lágrimas no barranco.
A alma abandona o homem,
Como a água a vida
Se nos vai de pronto.
Filha
Filha minha,
Sorriso de doçura.
Sim, sangue do meu sangue,
Ternura do meu sonho.
Pura, linda,
Amor de menina.
Assim luz e névoa mais branda
Ilumina doce as horas do meu sono.
Quando todo dissabor retira breve,
Se tua visita alegre
Retorna à casa mais querida.
Ainda que cedo o inesperado
De ti me apartou a vida,
Bem cuidado é teu jardim,
Teu aposento da memória.
Este ano fazes teus vinte e um anos
E eu já sou avô sem neto.
Enfim, desta feita,
Dissipa-se a amargura
E do tempo a resignação aceita,
Mas não lhe tributa.
Ainda que me espreite
Sua implacável força e o olvido.
À memória de Renata Roland
Sorriso de doçura.
Sim, sangue do meu sangue,
Ternura do meu sonho.
Pura, linda,
Amor de menina.
Assim luz e névoa mais branda
Ilumina doce as horas do meu sono.
Quando todo dissabor retira breve,
Se tua visita alegre
Retorna à casa mais querida.
Ainda que cedo o inesperado
De ti me apartou a vida,
Bem cuidado é teu jardim,
Teu aposento da memória.
Este ano fazes teus vinte e um anos
E eu já sou avô sem neto.
Enfim, desta feita,
Dissipa-se a amargura
E do tempo a resignação aceita,
Mas não lhe tributa.
Ainda que me espreite
Sua implacável força e o olvido.
À memória de Renata Roland
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